quinta-feira, 3 de julho de 2025

Tarja preta

A triste história do filho que era marido da mãe.
Da esposa que era mãe do marido.
Da irmã que era mãe da irmã.
Do tio que era pai da sobrinha.
Da filha que era o marido da mãe. 
Do marido que era filho da esposa.
Da tia que era mãe dos sobrinhos.
Da irmã que era esposa do irmão.
Da esposa que era filha do marido.
Do pai que queria ser o macho da filha.
De todas as pessoas que são o que não são. 
A vergonha do patriarcado. 
O egoísmo materno.
O abuso fraterno.
A pura e indigesta usurpação do amor.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Te amo, profano

 


 

Te amo, profano

Beltrano, ciclano, fulano

Me dano

Nos danos

Nos anos

Nos panos do corpo mundano

 

 

Te quero Devasso

sem laço

No abraço

Sem aço

Sem tempo, sem espaço

 

Te quero fiel

Ao doce amargo mel

De toda a imensidão do meu céu

Na beleza do sempre cruel

Ondas

 

Quem dera eu... ter meus braços como segmentos dos seus cabelos. Longos e inseparáveis. Entrelaços  e abraços. Eterno embaraço. Os fatos, um fiasco. Daquilo que é só desejo e não traço. Sem carícias. Sem espaço.

Poesia nota sobre o ser humano

 


 

Como num milagre, vive de migalhas.

 

Migalhas de afeto

Migalhas de vida

Migalhas de filhos

 

De amor

Migalhas de reviravoltas

De conforto, de segundos

 

Migalhas de infinitos

De pão, de milagres.

 

Sementes são migalhas

Da semente, a raiz

Da raiz, a vida

Da vida, as flores, os frutos.

Doces Verdes Azedos Maduros

Da terra, o milagre , que é natureza

 

Migalhas nem sempre são migalhas

Caem no peito e brotam.

Explosão.

Num silêncio profundo

Acordam meu coração

Máscaras

 


 

Me mostre o seu rosto

O desgosto!

O imposto!

O fel no dorso, o encosto

 

Me mostre sua cara lavada

Cansada

Estraçalhada

Sem rumo, largada

 

Me mostre a vontade do gozo

Do corpo aquoso

Do prazeroso

Indecoroso desejo doloroso

 

E dê a sua cara a sorte

A morte

O corte

Quem sabe... o peito seja corajoso e forte

 

Não quero ver seu rosto

Me  contorço

No esforço

De aceitar o fundo do poço.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Raios de sol


O dia marrom da cor do barro. A seca do inverno avermelhando as paredes da casa com a poeira da terra. La fora, verde. Cheiro úmido do orvalho na imensa e mista vegetação que muito resiste. O riscar bruto do fósforo - firme e decidido. O cheiro do cigarro misturado a fumaça da lenha. O homem na janela no primeiro trago, com gozo. Apesar do prazer, da janela e do cigarro, ele se interessa em aprecia-la, como sempre. Aquela linda mulher sobre a cama, acolhida em si mesma, em pleno prazer da manhã de domingo. Sem horário. Sem tempo. Sem pressa. Ela aprecia a fumaça do cigarro saindo pela janela, sob a luz do sol, em raios largos e definidos. Ele, percebendo o despertar dela, se direciona ao fogão enfumaçado e coa um café. Ela, em reação: “Adoro o cheiro do café...”. E sorri pra si mesma de olhos fechados, esfregando o rosto no travesseiro. Ela, meiga. Ele, apaixonado. E leva até ela a caneca cheia e enfumaçada. Ela se mexe, aprumando-se na cama e, novamente, aprecia o perfume do café, aproximando o rosto da fumaça quente e acolhedora. Ele olha pra ela. Inclina a cabeça em pura admiração, invade seus olhos e passa os dedos entre seus cabelos. Ela pede um trago em meio às goladas de café. Ele não tira os olhos dela. Ela não sente mais o frio e se desvencilha do cobertor que a enrolava até o busto. Nua. Ele apaga o cigarro. Eles compartilham o café e esvaziam a caneca. Ele, sentado na cama, aprofunda cada vez mais o seu olhar. Nela. Ela. O sol entra em lentos movimentos. Os raios se confundem com as suas mechas claras e despenteadas. Ele começa pela nuca. Dela. Se aproxima. A mão firme se faz delicada e forte. Desce até os seios. Ela séria e embebecida. Não há tempo de se decidir sobre a entrega. No primeiro olhar, já se faz. Os seios perdem as mãos trocadas por beijos famintos. As costas ganham as mãos largas, apressadas, fortes e decididas. Os troncos se encostam, inteiros. Os beijos se contorcem. Pelos cabelos comprimidos em suas mãos certas, ele a conduz a deitar-se sob ele. Ela o aceita. Ela o permite. Ele a agradece.

domingo, 13 de janeiro de 2013

ANÁLISE DE OBRA: ACROBATAS, 1958, DE CANDIDO PORTINARI, ACERVO DO MUSEU DE ARTE DA PAMPULHA - MAP


Introdução
O presente estudo tem como objetivo apresentar descrições técnica e formal sobre a obra Acrobatas, de Candido Portinari (Brodósqui SP 1903 – Rio de Janeiro RJ 1962). O artista foi pintor, gravador, lustrador e professor e se destacou no contexto artístico brasileiro com importante participação na criação da arte moderna nacional. A obra data de 1958 e faz parte do acervo do Museu de Arte da Pampulha – MAP, em Belo Horizonte.
















http://teste.otempo.com.br/jornalpampulha/noticias/?IdNoticia=7576


Descrição técnica
A obra tem dimensões de 62 cm x 76 cm, técnica de tinta a óleo sobre madeira e apresenta como tema dois sujeitos em posição de acrobacia. Ambos se encontram de cabeça para baixo, com pés voltados para cima, apoiados no chão pelas mãos ou cabeça. As cores presentes na obra são tons de verde, rosa, azul, amarelo, alaranjado, preto e cinza.
O modo estilístico adotado por Portinari em Acrobatas traz pinceladas suaves , em esfumato: A palavra vem do italiano e significa “à maneira da fumaça”. Esta técnica consiste em não pintar linhas de contornos nas formas, mas pelo contrário, criar um efeito de claro e escuro que possibilite uma passagem sutil de uma cor para a outra. (http://sabermaisarte.blogspot.com.br/). Ou seja, a criação das formas se dá pelo contraste entre as cores e não por linhas de contorno.
Sobre o posicionamento dos sujeitos na obra, se vê o acrobata da direita apoiado no chão pelas mãos e pela cabeça, com o corpo reto em sua verticalidade. Já o acrobata da esquerda, se apóia no chão apenas pela sua mão direita e tem as penas inclinadas para seu lado esquerdo (seu braço esquerdo encontra-se reto, suspenso no ar).
A noção de plano se faz em Acrobatas através de cores e formas quadradas. O plano de fundo pode ser identificado pelo domínio da cor verde. Já em relação ao primeiro plano, se percebe uma variedade de cores e formas quadradas compondo o que seria o chão com a presença do acrobatas se apoiando.
A composição da obra apresenta os acrobatas na área central da pintura e, como dito no parágrafo anterior, dois planos podem ser identificados. Na área central do plano de fundo, interrompendo o domínio do verde, o mesmo estilo de formas e cores do chão no primeiro plano surge na obra. Essa interrupção aparece como plano de fundo das pernas dos acrobatas.

Descrição formal
Em Acrobatas é nítida percepção da posição dos sujeitos em suas acrobacias apesar da ausência de traços e linhas definidas. Portinari não coloca em dúvida a posição em que se encontra cada membro dos corpos dos acrobatas. E o posicionamento de cada um dos membros acontece em harmonia com os outros, criando assim um equilíbrio físico, o qual possibilita a realização bem sucedida da acrobacia.
Apesar dos dois acrobatas se mostrarem semelhantes a artistas de rua (impressão criada pela forma simples como se vestem), dois aspectos da obra sugerem a sensação lúdica de uma esfera circense: as cores e a interrupção do verde a qual faz o plano de fundo das pernas suspensas dos acrobatas. A questão das cores se constrói nessa esfera a partir da diversidade pictórica da obra. Diferentes cores se espalham por diferentes áreas. Todo esse colorido cria características semelhantes a de um ambiente de circo. Essa impressão é fortalecida pelo plano de fundo colorido das pernas dos acrobatas. Esse elemento tem formato cônico, lembrando a iluminação focada que comumente se vê sobre os artistas durante apresentações. A seguinte imagem ilustra essa idéia:



Esse plano de fundo colorido que acompanha as pernas dos acrobatas cria outra sensação, além da idéia da iluminação focada: se mostra como uma extensão do chão, criando a impressão de uma falta de limites para o movimento dos acrobatas. Os elementos ar e chão se trocam assim como as pernas são trocadas do chão para o ar (fato que cria o movimento do acrobata). Ao mesmo tempo em que o chão está na área inferior da obra, ocupa também o centro e a área superior. Portinari parece brincar com os planos, desfazendo assim limites entre o céu e a terra, da mesma forma como fazem os acrobatas.

Conclusão
A descrição técnica de uma obra está mais voltada para um sentido de identificação. Um exemplo disso é a sua utilização em fichas de cadastro e identificação de obras, usadas em instituições como museus e galerias de arte. Já a descrição formal, é mais voltada para estudos no campo das artes visuais, contribuindo para a expansão das possibilidades de interpretação de efeitos criados por elementos como composição e uso das cores e das formas nas obras.
Portinari, em Acrobatas, cria de forma bastante rica efeitos que ultrapassam os elementos da descrição técnica. A obra, portanto, oferece possibilidades para a análise formal a partir de uma visão que vai além dos aspectos técnicos e confirma assim o considerável reconhecimento da arte de Portinari no contexto nacional e mundial.


Referências:
http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=artistas_criticas&cd_verbete=121&cd_item=15&cd_idioma=28555
http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://teste.otempo.com.br/jornalpampulha/fotos/20110319/foto_galeria_07032011170801.jpg&imgrefurl=http://teste.otempo.com.br/jornalpampulha/noticias/?IdNoticia%3D7576&h=520&w=600&sz=130&tbnid=RNnCZMBDJyZg2M:&tbnh=90&tbnw=104&prev=/search%3Fq%3Dacrobatas%2Bportinari%26tbm%3Disch%26tbo%3Du&zoom=1&q=acrobatas+portinari&usg=__pEb1gsHX5a7uBlqwWmAZ_fj0LW0=&docid=nyGiDGGa53C6xM&hl=en&sa=X&ei=wTPzUOW5LJTo9gTJ2IGACw&ved=0CDEQ9QEwAg&dur=422